Quando olho para a tua face triste, tento sempre pensar em coisas boas para aliviar a minha dor. Penso que tiveste uma grande vida, tiveste um grande amor, muitas amigas, muita felicidade.. Penso que foste tão feliz como eu sou agora. Na minha imaginação tiveste um grande amor, o avô, e foi um amor complicado mas, como em todas as histórias, ficaram juntos. Imagino que tiveste muitas amigas como eu tenho, e que te divertias muito com elas, e que talvez cantassem ou brincassem à malha, já que na tua altura não havia televisão, muito menos internet... Depois ficaste com o teu grande amor, casaste e tiveste uma grande felicidade: os teus filhos, netos e bisnetos. Tento imaginar que todos provaram o amor que tinham ou têm por ti, mas isso não é bem verdade.. Tento imaginar que nenhum te desiludiu ou magoou quando realmente precisaste, mas sei que é mentira. Mas na minha imaginação é assim, ninguém te desiludiu, todos foram bons para ti e estiveram sempre cá quando mais precisaste. O teu grande amor nunca morreu, e esteve sempre contigo à medida que envelhecias. E hoje vives feliz e sorridente, rodeada dos filhos, netos e bisnetos, e claro, do teu grande amor, que sobreviveu a uma vida inteira. Infelizmente, nada disto é verdade. Não sei se tiveste uma vida feliz, nem se tiveste muitas amigas, ou se te divertias com elas, porque sempre me contaram que eras uma mulher de trabalho. Certamente tiveste um grande amor, que provavelmente é o avô, mas não ficaste com ele para sempre, visto que morreu. Tiveste muitos filhos, netos e bisnetos, e embora alguns gostem de ti e te tratem muito bem, a maior parte virou-te as costas quando mais precisavas, e por isso odeio-os mais que tudo no mundo. Sei que foste obrigada a ir para um sitio que não querias, porque simplesmente não tinhas para onde ir. Um sitio onde não te tratam como mereces, e onde parece que és um fardo. E quando estás sentada na tua cama a ouvir as conversas, ou a dizeres que estou muito crescida, eu imagino isto tudo, imagino que tiveste um grande amor, muitas alegrias e felicidades, e que agora acabas-te assim, sozinha, condenada a uma vida de rotina, sem novidades, apenas vives, porque não tens mais nada para fazer... E para me sentir mais aliviada, penso nisso tudo, que já foste muito feliz, e que um dia, todos nós, vamos acabar assim como tu. Não sei se não tenho uma parte de culpa naquilo que te aconteceu, mas que poderia eu fazer? Nunca houve outra opção. Não sei se terás muito mais tempo de vida, pois pareces sempre muito cansada e farta, e vê-se que fazes um grande esforço para te manteres viva. E é essa força de vontade que ainda me enche os olhos de lágrimas. Não compreendo e nunca compreenderei o que fizeste de mal para te tratarem assim. Sei que responsabilizo muitas pessoas pelo que te aconteceu, e juro que a minha raiva nunca terá fim, aconteça o que acontecer. Penso em ti sempre. AMO-TE BISA.