21 de junho de 2010

Avô.

Sempre foste uma figura muito fria para mim. Nunca mostravas as tuas verdadeiras emoções, e não me lembro se gostava de ti, ou se me tratavas bem, sinceramente não sei.. Só sei que sempre soube que não era a «favorita», e sempre reparei nas desigualdades dos teus comportamentos. Para dizer a verdade, nunca me senti mal por isso, nem nunca tive ciumes ou procurei chamar a tua atenção. Muitos não acreditam e tentam falar disso comigo, mas é a mais pura das verdades. Não sei porquê, mas nunca quis a tua atenção. Não sei se estou a ser má por dizer isto mas é a verdade, e não quer dizer que não te ame, porque amo. Foste sempre um homem activo, lembro-me que andavas muito de bicicleta e de barco, que era basicamente o teu mundo. Lembro-me também quando ias para o terraço e construias os teus barcos (estou a olhar para um deles agora) e lixavas o barco, e construias as redes e tudo o mais, e até hoje nunca percebi como foste capaz de fazer coisas tão perfeitas com as tuas mãozinhas. Enfim, andavas sempre de um lado para o outro: de manhã ias para o barco, andavas na tua motinha ou de bicleta, trabalhavas nos teus barcos, comias, dormias a sesta num sitio qualquer com a tua mantinha, depois acordavas e ias ver o pôr-do-sol e estavas o resto do dia sentado no pátio ou a fazer outra coisa qualquer, porque tinhas uma vida muito ocupada. Não gostavas que vissem televisão ao almoço, nem gostavas que cantássemos, porque ficavas com dor de ouvidos. Não me lembro de seres mau para mim, nem de me castigares, por isso posso dizer que basicamente eras um avô que deixavas os netos fazerem aquilo que queriam.. Se queriam brincar, brincavam, se queriam ir para a rua, iam. És um homem que só tem dois medos: médicos e hospitais. Não é bem um medo, mas é uma verdadeira chatice. Não és necessariamente uma pessoa engraçada, mas tens momentos bem animados na tua vida, e às vezes dizes coisas que me fazem quase morrer de tanto rir. Ao contrário de algumas pessoas, tenho acerteza que foste muito feliz. Infelizmente, a tua vida não tem sido fácil. Às vezes tento pensar porque não me preocupo contigo, quer dizer, eu preocupo-me, mas talvez não tanto como devia. Acho que simplesmente já passou tanto tempo e continuas tão doente, e cada vez mais frágil, que prefiro não pensar no que te vai acontecer, nem ver o que te está a acontecer. Para quem não mostrava as suas emoções, tornaste-te numa pessoa muito emocional, choras quando vês um amigo, ou quando contas uma história, ou simplesmente quando chega alguém a casa. Não sei como te animar ou como te acalmar, porque não te conheço muito bem, e nunca sei o que devo fazer. Custa-me muito ver-te sempre deitado na tua cama, ou a dormir, porque sei que o teu maior desejo era estar na rua, a ver o pôr-do-sol, ou estar no terraço a construir barcos. Sei que sempre que vês um, deves sentir uma saudade enorme desses tempos, e o pior é que sabes que nunca mais poderás fazer com que esses tempos voltem. Já não consegues andar sem ajuda, nem ir à rua sozinho. Basicamente não podes fazer nada sozinho. E choras e perguntas porquê e ninguém te consegue responder, porque realmente ninguém sabe porque é que isto te aconteceu a ti e não a outra pessoa. Logo tu, uma pessoa tão activa, que não conseguia estar parada um minuto, é obrigada de um dia para o outro a estar sempre fechada em casa, sem poder fazer absolutamente nada, sem ser dormir ou ver televisão ou andar um bocadinho na rua, até não te aguentares mais nas pernas e ficares cansado. Não sei porque é que a vida é tão injusta, mas aprendi à muito tempo que as melhores pessoas têm as maiores provações. Custa-me muito não poder fazer nada, mas ninguém pode, e os dias simplesmente passam, e cada dia que passa é mais um na história da tua vida. Uma história muito atribulada e que já deu grandes voltas. Mas nessa tua história insistes em recordar todo o teu passado e pouco a pouco vais esquecendo coisas básicas como o mês e o dia em que estamos, as horas, o que acabaste de fazer, o nome das pessoas... Só te peço que nunca te esqueças de mim. Desejo-te o melhor do Mundo, e apesar pareça que não me importo, acredita que me importo, e quando me agarras e me dás muitos beijinhos, acredita que os que te dou são bem verdadeiros e que só quero que não desistas mais, e que lutes por aquilo que ainda tens: uma pessoa que te ama muito, muitos filhos e muitos netos, e vamos estar cá sempre contigo. Amo-te avôôô.

Jacob Theme, Howard Shore.